Esta pesquisa é parte dos resultados do projeto “As terras comuns e a criação de gado no Turiaçu: a fronteira entre o Pará e o Maranhão no contexto da lei de terras (1840-1878)” coordenado pela Prof. Dr. Sueny Diana Oliveira de Souza, vinculado ao Cnpq e financiado pela Ufpa. O objetivo é compreender o processo de ocupação nas margens do rio Gurupi com o assentamento de uma colônia militar pelo governo provincial maranhense após 1852 quando a região do Turiaçu foi anexada ao Maranhão e seu rio de mesmo nome deixou de ser a fronteira política entre o Pará e Maranhão e foi redefinida para o rio Gurupi. A partir da investigação em relato de expedição do engenheiro Guilherme Dodt, jornais, anais do Senado, mapas, relatórios de província e correspondências entre autoridades locais, constatou- se que nesse contexto, a consolidação do Gurupi como fronteira foi um processo lento; não dependeu apenas da definição política em 1852. Mas das diferentes experiências sociais, culturais e econômicas que os diversos grupos assinaram ao ocupá-la em um ir e vir cotidiano. A colônia militar do Gurupi foi significativa nisso. De caráter híbrido, seus moradores devendo pegar em enxadas e em armas acabaram estabelecendo modos de viver. Bem como a criação de gado realizada nela atravessando os animais para o lado paraense do rio e as iniciativas de encontrar caminhos para manter um comércio com o Pará aparecem como complexas formas de perceber o rio como fronteira, ora a ignorando ora a reconhecendo. A ação do primeiro diretor da colônia, Tenente Junqueira, em permitir a migração de alguns índios e fazendeiros ricos para suas proximidades também faz parte disso, pois se buscava construir uma identidade civilizada e ordenada a esta fronteira ditando quem devia ocupá-la. Por outro lado, ela também recebeu ocupações não pensadas pelas autoridades provinciais como regatões, quilombolas, índios e pequenos criadores de gado vindos de outras localidades que desencadearam episódios de conflitos e de aberturas de estradas na busca de terras para a sobrevivência na urdidura diária. Com vista nisto, da união das proposições dos geógrafos Yves Lacoste e Claude Raffestin sobre território e espaço, o conceito debatido por José Barros d’Assunção de territorialidades superpostas ajuda a entender a fronteira Gurupi como um espaço que é constantemente apropriado e redefinido pelas identidades de diferentes sujeitos que procuram ocupá-la a longo ou em curto prazo. Uma vez que o conceito entende que um indivíduo em suas ações cotidianas e se relacionado com um grupo se apropria de um espaço produzindo um território de maior ou menor durabilidade.